quinta-feira, 21 de abril de 2016

Caro leitor 6

Espaço d'artes
Galeria
Rua dr Roque da Silveira (Rua direita)
Vila Real
21/04/2016
21h30m
Os presentes de A a R
Anabela Quelhas
Carla Azevedo
Cristina Caldas
Délia Fagundes,
Fátima Campos
João Sequeira
Jorge Marinho
Luísa Costa
Rafael Pelayo
Rui Coelho





Combinamos levar os rabiscos que todos fazemos, já que a noite seria passada numa galeria de artes, e ninguém cumpriu excepto a Fátima, o que comprova o espírito rebelde e anarca que há em nós e teima não se moldar a pedidos, nem a vontades, toldando-nos a memória. Cheguei primeiro e fui a primeira a esquecer os rabiscos em casa.
Um voto de protesto, porque antes da nossa … (com lhe devo chamar???clube? tertúlia?carolice? sei lá!) enfim este encontro, rumei ao supermercado para comprar uns aperitivos e umas castanhas de caju, para animar o corta-palha do pessoal da conversa vadia e oiço uam voz atrás de mim:
- Então é assim que fazes dieta?!!!!!

Vivemos num mundo onde a gentileza não tem vez!   

Fomos recebidos pelo Jorge e o seu espaço de criação, onde pudemos apreciar algumas pinturas expostas e determinamos que o Rui, ao longo da noite teria que ir rabiscando num papel, para nos comprovar a autenticidade da arte divulgada na sessão anterior.
O Jorge só conhecia três elementos, a Balbina Mendes não conhece nenhum e é a Balbina!!! Ups desviei-me… e então o Jorge não sei se já ultrapassou o trauma nocturno de ver 9 grandes vadios a invadir o seu espaço para deitar conversa fora.
O Jorge falou de Moçambique, apresentando-se.
Veio o Arafat, já não sei porque, o Trump, a América onde tudo é possível até ter um Trump e um Obama. O mundo está louco, até os Simpsons já se aperceberam disso!
A Fátima chegou de saco-cheio na verdadeira acepção da palavra - saco cheio de artesanato confeccionado com trapilho e outros materiais reciclados, onde a poesia e a literatura têm passaporte actualizado – flores, toalhas, guarda-chuvas, cds, pisa papeus, gargantilhas e broches.

Broches???? Alguém questionou escandalizado.
Amolador de tesouras/ guarda-soleiro, PRECISA-SE URGENTE.  

- Eu própria sou toda uma grande motivação! – foi a primeira frase bombástica revelando a reduzida auto-estima da palavreante.






















Acabou o quebra gelo e mesmo sem cerimónia todos encheram o seu copo com vinho importado da quinta dos Lagares  2012– garrafa cintada em diagonal com rótulo vermelho, com um touriga nacional, travo a tangerina “mai-lo” carvalho, “mai-lo…!!!! J
- Se observarmos bem, conseguimos ver as abelhas na polonização – afirmou alguém logo no primeiro ensaio, armado em escanção.
Encomendas 5€ - Quinta Vale de Mendiz – Favios – Pinhão (e também vende azeite)



Enquanto alguns comentavam o pão de Favaios e o azeite da isabel, esta apresentou o livro que trouxe para partilhar: "Empresa das Índias" de Erik Orsenna. Cristóvõ Colombo para aqui e para acoli.









Délia saca do seu “Navios da Noite” de João de Melo, realçando a epígrafe de Álvaro de Campos:

“Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.”

Uma obra dedicada à perspectiva do “vencido” = Louser

O que é ser vencido? O sucesso de um vencedor constrói-se à custa de vários vencidos.

A Luisa evocou o seu escritor preferido Haruki Murakami, Kafka à beira mar (título sugestivo, uma obra pode ter sucesso apenas pelo título), Sputnik, Meu Amor, 1Q84


O Deus das pequenas coisas



A insustentável Leveza do ser – o livro e o filme, a eterna discussão sobre o que é melhor, a decepção ou a surpresa?


Alguns comentários sobre a difícil tarefa de ensinar literatura, … a interpretação, "se queria dizer, porque não disse" (achei o máximo, porque é uma eterna verdade para os matemáticos).
Abordou-se a simbologia da cor através de um poema de Camões:



Descalça vai para a fonte


Leonor, pela verdura;

vai formosa e não segura.

Leva na cabeça o pote,


o testo nas mãos de prata,

cinta de fina escarlata,

sainho de chamalote;

traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,


cabelos de ouro o trançado,

fita de cor de encarnado

tão linda que o mundo espanta!

chove nela graça tanta
que dá graça à formosura;
vai formosa, e não segura.

Luís de Camões




Claro que entrou a conversa vadia, ocasionada por um comentário menos confortável de um aluno…. Veio a história do período, do pensinho que deixa respirar (apenas as mulheres), OB que deixa fazer tanta coisa, e mais umas alarvidades que eu não soube ler no meu rascunho…. 
Quem te escreveu, que te leia!!! Nomeadamente tirar o SELIM… ahm?
O Rui mostrou a sua veia artística para desenhar maças reinetas e as suas potencialidade para a dança – fez uma pequena exibição com uma valsa, tendo como par a Carla…. (Oh Jorge! aturas cada coisa!!!)
Da valsa passou-se para o Kuduro e para o toque da próstata, 
                                    como a nossa imaginação é fértil!
- Para mim,  co(u)zinho!
- Seu cuzinho não lavo…. Ah???? Ouvi isto? Espelhos e balanças,  as cores que engordam e o folclore do Pelayo. Ele queria muito dançar folclore, mas não deixamos.

Rafael fica para a próxima!!!! 






Montanhismo e ciclismo,... que tem a ver? A ligação é com o Rafael…. Só ele sabe.
Caminhos de Santiago.
Coro da UTAD, Mátria.

- Sonhei que estava a correrrrr, Fátima, o que andas a comer ao jantar? A fugir de um cão?

(como já perceberam cansei-me de escrever, e só anotei palavras soltas, confiando na minha memória que nunca é de confiar – Não bebi! Palavra.)
Fernando Mamede e o seu "complexo de lebre", quem viu, quem viu aquele desastre desportivo?
Humor negro entre a Etiopia e a Jamaica, jogo em relva, metade comida, metade fumada – ups humor negro, como de negro passavam os “Urubis” para a noite de fado.
- Odeio fado – eu.
O sucesso dos lápis de cor com cor de pele- ainda vou investigar… (interessante)

“A Uniafro (Programa de Ações Afirmativas para a População Negra), em parceria com a empresa Koralle, criou um estojo de giz de cera com 12 cores de pele, que variam do bege ao marrom-escuro. A ideia é fazer com que as crianças encontrem tons entre opções mais realistas, mostrar a diversidade racial da nossa população e promover a igualdade entre os alunos.” Google

A Carla apresentou o projeto do José Eira (faltista)
O primeiro registo de longa duração dos Addūcantur acaba de ser lançado!
“Mosaico” contém 8 faixas que mostram o variado leque de influências musicais e abordagens instrumentais que salientam a originalidade deste projeto.
José Correia: Guitarra Clássica, Duduk
Eloísa d´Ascensão: Voz, Letras
Nuno Silva: Santur Persa, Baglama, Oud
Luiza Bragança: Piano
Sérgio Henrique: Space Drum, Tar, Riq, Udu, Percussões

Gravado nos Estúdios Musibéria por Hugo Bentes e André Espada, Julho – 2014
Misturado e masterizado por Francisco Leal, Outubro 2015 – Março 2016
Podem ouvir aqui:
"Conhecer este projeto dá-nos a possibilidade de ouvir algo diferente do que normalmente ouvimos, mas é preciso Ouvi-lo com ouvidos de Ouvir, sem pressa e de espírito aberto porque não é o tipo de música que costumamos ouvir. Como se costuma dizer "primeiro estranha-se e depois entranha-se" porque a mistura de instrumentos, que são muitos e alguns deles muito diferentes do que estamos habituados a ouvir: duduk, space drum, udu, só para nomear alguns, transportam-nos para locais diferentes e distantes. Este CD é como um livro de histórias que se vão desenrolando ao longo do trabalho e que se vão desvendando à medida que vamos ouvindo uma e outra vez porque há partes que só se leem nas entrelinhas, ou seja, à medida que vamos entendendo a música. A vocalista tem uma voz muito melodiosa e envolvente. 
Há duas músicas que destaco: a primeira "Ulisses", pela voz, por uma mistura de fado com um cheirinho de flamenco e de sons orientais e "Sessiz" pelo piano e pelo duduk,a mistura é soberba: uma sensação de paz e de calma incrível!" (Carla Azevedo) 
Para encerrar, as horas da noite viravam já para outra noite, ensinei a observar estereogramas, confessando a minha admiração por Salvador Dali.
E porque já nem eu já me aturo a escrever e a ler, vou remeter o assunto que prometi para :


Há muito mais, mas por agora é tudo.
Beijinhos e abraços e treinem essa vista vadia, pois há mundos desconhecidos quase invisiveis mesmo debaixo dos nossos digníssimos narizes, com capacidade para nos surpreeender.

Até à próxima, obrigada Jorge.

Convite 21 de Abril de 2016


quinta-feira, 17 de março de 2016

Caro leitor 5

Traga-Mundos
Livraria
livros e vinho, coisas e loisas do Douro
Rua Miguel Bombarda, 24-26-28
Vila Real
17/03/2016
21h30m


 Para ir ouvindo:

http://quelhasjustes.podomatic.com/entry/2012-04-21T18_10_44-07_00

As noites continuam gélidas, mas o entusiasmo dos conversadores vadios não desarma.
Hoje os Caros Leitores juntaram-se na livraria especialista em Trás-os-Montes, Traga Mundos, cujo proprietário nos recebeu com toda a simpatia e passou a integrar este grupo heterogéneo de conversar. Levou um amigo, o Zé Pinto, um “calhau” do grupo de poesia, nosso sério concorrente cultural. Apareceu também o Agostinho, já nosso amigo de outras histórias, os restantes mais ou menos os mesmos. 
O grupo vai crescendo, pois é um grupo sem cerimónias e sem compromissos mas tem pelo menos um elo comum, a conversa solta e vadia.
Reunimos na cave da Traga Mundos – um espaço surreal, inimaginável. Por acaso é a cave da Traga Mundos mas poderia muito bem ser um sitio esconso da escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts (Harry Potter), ou algum subterrâneo do Senhor dos Anéis.
Descemos uma escada íngreme, prima das escadas dos submarinos, onde muitos murmuraram, Ai jesus, Ai meu Deus, CREDO!!!! O joelho, a perna, a anca… e toda uma anatomia  genuflexória, que sempre emerge nestas situações.  
Alguém apalpou as mamas de um manequim, localizado a um canto.
Alguém perguntou, quem são“OS Calhaus”?
Recordou-se a possibilidade de haver um ritual iniciático…. Hipotese que ainda se está a desenhar… será a cueca vermelha? Será?... será ? pois ainda não sabemos, mas que irá haver, irá e ninguém vai escapar, excepto as mentoras desta vadiagem!!!!!
Presentes e por ordem das assentadeiras:
Carla Azevedo
Raul Alhais
Marina Teixeira
Fátima Campos
Sónia Pereira
Adelaide Afonso
Isabel Sarmento
Agostinho Leitão
Fernanda Gouveia
Luísa Costa
Rafael Pelayo
Rui Coelho
Anabela Quelhas
Zé Pinto
António Alves– nosso anfitrião
Baixaram os copos e o vinho, desta vez como se identifica nas fotos, 14 (de)graus e meio de Xis corações, fizeram-se ensaios com os bracinhos perdidos de uma manequim. :-)

- Não, não faças isso, senão vou ter que dar explicações, lá em casa!!!

- Alguém confessou que o pretexto dos livros era apenas a justificação para apresentar em casa, para sair à quinta à noite para entrar na conversa vadia.

Apresentaram-se os presentes… quem és tu Agostinho????  Como encontraste os dois bacanos que te inseriram neste grupo?
Resposta: Estava à beira da estrada e…
Nas apresentações a conversa vadiou por cama king size, quinta dos lagares, Vale de Mendiz, as francesinhas vegetarianas do Cardoso, a vegetarianisse da nossa psi, a vila? de Joane, em Guimarães, as regiões boazonas, o Raul brasileiro português de Vila Real, um sociólogo para o grupo e mais um psi – calhau,… alguém se apresentou como áureo, puro, angélico e inocente (modesto, este!), … falaram-se de mais lugares…Sintra, Sto Tirso, Viseu, Luanda, pensão Areias,  alguns responderam onde estavam no 25 de Abril…. Ehehehe
Alguém chorou todos os dias quando veio viver para Vila Real… o telúrico faz saltar as lágrimas!!!
Ficamos a conhecer o grupo de poesia “ Os Calhaus”, concluímos que teremos grande afinidades, que pretendemos confirmar próximamente.  
Evocaram-se algumas figuras ilustres de Vila Real especialmente – Otílio Figueiredo e Alberto Miranda.
O vinho foi-se degustando à mistura com algumas nozes.
Num olhar à volta, tivemos a presença de manequins, maquetes, livros, artesanato, enfim tudo aquilo que pode permanecer numa cave olhando-nos com desconfiança.
Este encontro como foi realizado num sitio carismático, a antiga Setentrião, houve algo preparado para esta  tertúlia, enriquecendo um pouco, os muitos caminhos da nossa conversa.
Apresentou-se Otilio Figueiredo (1909- 1988) antigo proprietário da livraria Setentrião, forneceram-se alguns elementos sobre a sua vida e a sua obra, destacando-se o seu perfil multifacetado (médico, músico, pintor, caricaturista, escritor), que assumiu por vezes pseudónimos: "Robespierre" e "D. Fuas". Sublinhou-se o seu percurso político e a sua vertente republicana e humanista.
Referências ao seu centenário – exposição realizada pela biblioteca da escola Monsenhor Jerónimo Amaral (2009) – distribuíram-se marcadores de livros.
Partilharam-se duas histórias de alguém que o conheceu de forma mais próxima (pode ler no final do post), alguns livros e reproduções do retrato pintado por Heitor Cramez, gentilmente oferecidas por um dos seus filhos: Otílio Palheiros Figueiredo excelente profissional no exercício da cirurgia. 
Livros: Cabo Mingas, ABC das mães, Os cem anos da avó Ricardina, A praga de gafanhotos, Prelúdio, Ressuscitemos os cravos vermelhos, Canhenho de um médico, Era uma vez,... 
Pintura de Heitor Cramez
Fotografia de Joe Zigoto

Seguiu-se a promessa da partilha dos registos musicais, via internet.
 http://quelhasjustes.podomatic.com/entry/2012-04-21T18_10_44-07_00
O nosso poeta calhau, Zé Pinto finalizou esta apresentação declamando "Ode ao vinho" que consta na obra "Prelúdio" de Otilio Figueiredo. (não sei quando terei tempo de copiar para publicar aqui).
Os presentes gostaram - pela expressão, pelo olhar, pela atenção feita de silêncio e interiorização do conhecimento de uma figura ilustre, desconhecida da maioria dos presentes.
Foi uma pequena homenagem merecida.

A fotografia à tela de Heitor Cramez sobre Otílio Figueiredo - Março 2016 (eu e Otílio filho), tal como prometi.
Fotografia Joe Zigoto



......
Voltou-se a um livro referenciado na sessão anterior: O Torcicologologista. Irão ler para crer.
Alguém referiu que o último livro que leu foi a “Anita na praia” e afinal agora mudou de nome para Martine… :-)
Depois voltando à conversa séria, evocou-se Manuel Cargaleiro, como tendo um museu dedicado à sua obra em Itália. Associou-se outro grande nome da pintura portuguesa contemporânea, Maria Helena Vieira da Silva.
Descobriram-se talentos escondidos
- As pinturas do Rui Coelho,






- O artesanato de Fátima Campos, que todos queremos conhecer,
- A experiência frustrante da Quelhas, quando iniciou a sua carreira de ceramista por um dia e colocou a peça no forno de gás para cozer, tendo ocorrido uma explosão de barro em todo o forno.
Finalmente aconteceu uma articulação entre ver Torga a comer um arroz de cabidela em Chaves, daghhhh e o filme “Amo-te Teresa", que só entenderá quem esteve presente.
A Isabel levou um livro que irá partilhar na próxima sessão, pois as horas galoparam pela noite fora! 

Caríssimos, boa noite, continuem bons conversadores e dispostos a vadiar pela cultura.
AQ








































Links a consultar:
http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=558&id=4662&action=noticia

http://apps2.utad.pt/docs/estudosdourienses/FIGUEIREDO,%20otilio.pdf

http://traga-mundos.blogspot.pt/







Como vais Jacinto?

                Numa sala de jantar organizada segundo a tradição, onde tudo deveria estar no sítio certo, reinava o silêncio modorrento de uma tarde soalheira, matizada pelos tons quentes da decoração, mistura cromática queirosiana, feita de cortinas e tapetes carmim, com os raios de luz projectados através das janelas que davam para o jardim da entrada.
                Eu, de franja, duas trancinhas, e de soquetes brancos, pela mão do meu pai, aguardávamos o senhor doutor.
                Aguardávamos em silêncio, pois estávamos numa casa de saúde, onde o barulho não era permitido e todos caminhavam com pés de veludo. O silêncio era enriquecido pela localização dessa grande casa, mistura de casa de quinta e clínica, na periferia da cidade de Vila Real. O barulho urbano mais persistente que eventualmente chegava até lá, seria resultante do motor de algum carro de aluguer, conhecido como carro de praça, que transportando alguém carente de cuidados médicos, na falta de um hospital decente e público, percorria o estreito caminho de acesso e finalmente estacionava no jardim, dando seguimento à sinfonia do silêncio reinante, que se estendia até ao rio Corgo.
                Ouvia-se o nosso respirar recortado de forma regular pelo pêndulo obediente do relógio de sala. O tic, tac, tic, tac, tic...,
                                               ia embalando a minha consciência, desconfigurando o tempo, deformando a noção dos minutos que passavam, mas oferecendo-me um grande aconchego hipnótico, que perdurou até hoje na minha memória.
                Antes de conhecer o Dr. Abílio, foi-me apresentado o seu auto-retrato, localizado numa das paredes dessa sala, entre aparadores e vitrines. Com três anos de idade, achei o auto-retrato, quase à escala natural, uma pintura gigante. A figura do médico, de bata branca, acompanhada pelos inseparáveis, bigode e cabeleira, indomáveis, era maior do que todas as representações pictóricas que eu tinha conhecido durante a minha curta existência. Aproximei-me, pus a minha mão de petiza, admirei cada pormenor. Achei o doutor simpático, mas escondi a minha chupeta cor-de-rosa, como medida de precaução - diziam-me que os senhores de bigode não gostavam de chupetas, na esperança de eu ir largando esse vício infantil.
                Continuei a observar a tela, as pinceladas, as texturas,... mas eu tinha que olhar para cima e não chegava com a mão ao seu rosto.
                O meu pai pegou-me ao colo. Dei-lhe a chupeta para guardar no bolso, pois achava que seria mais seguro, ser o meu pai a guardar o objecto de tão preciosa dependência, já que ao colo estaria ao nível dos bigodes do doutor - não fosse acontecer alguma surpresa com esse pedaço de parede que tinha bigodes e que era tão semelhante à realidade.
Tic, tac,... tic, tac,... tic,...
                - Não mexas no retrato! O senhor doutor foi quem pintou o seu próprio retrato. - disse o meu pai. Ele pinta muito bem, podes olhar, mas não deves mexer.
                - Mas ele é médico, trata os “dói-dóis”!? - surpreendi-me não conseguindo conciliar, no meu raciocínio infantil, estetoscópios, pincéis e tintas. A bata branca deveria ter alguma utilidade - eu veria as minhas irmãs a usar bata no colégio, mas isso seria uns meses mais tarde.
                Usava a bata branca, porquê? Como é que ele pintava e olhava para ele mesmo? Ignorava os truques dos adultos na reflexão das imagens de um espelho. O meu pensamento tinha dificuldade em gerir toda esta informação com a preguiça e sonolência inconscientemente resultante da combinação infalível do calor, o compasso do tempo emitido pelo relógio de sala e o colo confortável do meu pai.
                Talvez tenha adormecido, ou a memória engoliu o tempo e as imagens da restante espera, misturando-os com outras esperas na mesma sala, ocorridas noutros dias e com outros propósitos. Não sei...
                - O Abílio já vem aí! Então pequenita, queres um rebuçado? - perguntava-me uma simpática senhora de cabelo armado e bem penteado, que sorria para mim e que tinha ido avisá-lo da nossa presença.
                - Não obrigado, ela não quer. – agradeceu o meu pai.
                - Quero, quero pois! - opus eu, manifestando uma total ausência de cerimónia perante esta familia que acabava de conhecer, deixando o meu pai desarmado, perante essa desobediência descarada.
                Passaram-me os rebuçados.
                - Agradece. Diz: obrigada prima Manuela. – ensinou-me o meu pai.

                Entretanto uma figura quase silenciosa assomou à ombreira da porta de mãos cruzadas atrás das costas. Os meus olhos curiosos fixaram-se imediatamente nos seus bigodes. Sob estes emergia um sorriso afável, franco e quase do tamanho do mundo. Os seus cabelos eram revoltos mas belos.
                - Como vais Jacinto?

                Abraçaram-se os dois, num abraço de reencontro de dois continentes, feito de algumas cumplicidades, que se repetiu muitas outras vezes, encerrando histórias antigas, vivências comuns, ideais de liberdade partilhados e outros assuntos, nessa época, vedados ao mundo das crianças.

                Dois homens com dois destinos, cujos caminhos se cruzaram diversas vezes. Ambos sérios, íntegros, inteligentes, bonitos e amantes da liberdade. Um licenciou-se em medicina e estudou no conservatório de música, o outro apenas frequentou a 4ªclasse e tocava de ouvido uma gaita-de-beiços e um violão. Um teve infância e adolescência, o outro passou directamente da infância para a idade adulta, pois ficou cedo sem o pai - as diferenças do dinheiro no tempo em que, quanto mais ignorante, melhor. Apenas a resiliência era qualidade que fazia vencer.
                Anos mais tarde descobri que não era um auto-retrato, mas sim uma pintura de autoria de Heitor Cramez, mas as emoções não se alteraram.

In “ O fato que nunca vestimos” de Anabela Quelhas



Colchas nas varandas
                Sempre me impressionaram as multidões. Porque se juntam as multidões em torno de certas pessoas com objectivos pouco consensuais? Interrogo-me sempre sobre isso. O que as leva a estar e a entrar em enfuria colectiva?
                De repente, não sei em que ano, talvez em 1965, vi-me numa janela do largo do Pelourinho em Vila Real, assistindo ao passeio de Sua Excelência Almirante Américo Tomás, com a esposa e filha (feias de fugir), pela cidade de Vila Real, dentro de um carro cerimónias dos bombeiros, vermelho com muitos dourados, acenando para todos. Puseram-se colchas nas varandas e foi recebido em apoteose –aplausos, vivas, capas dos estudantes no chão para Sua Excelência atravessar... 
                                               … colocam-se colchas nas varandas para receber alguém, porquê? para ver passar as procissões religiosas e neste caso um presidente da república não eleito pelo povo?
                Nunca tinha visto nada igual, nem tanta gente junta. Foi um desfile triunfante, com chuva de papelinhos, polícia e grande reboliço entre os que gritavam Vivas. Provavelmente haveria uma comitiva, mas a minha focagem era aquele automóvel descapotável antigo, vermelho, que eu nunca tinha visto, com um senhor vestido de branco, cheio de medalhas a acenar, a acenar…
                O meu pai não estava e tinha deixado a recomendação à minha tia, umas horas antes:
                - Aqui ninguém vai para a rua. Se quiserem ver, usem a janela. Passo por cá mais tarde.
                Fiquei aborrecida, pois eu adorava festas e ali que se adivinhava uma grande festa, eu tinha que ficar confinada a uma janela do 2º andar! As ordens do meu pai, nesta minha fase infantil, eram para cumprir, sem ousar qualquer reclamação.
                Claro que esta era mais uma manifestação de propaganda política do regime do Estado Novo, a enfrentar problemas na opinião pública sobre as consequências da guerra colonial. Era preciso unir, era preciso reforçar a identidade dos portugueses em torno do império colonial que começava a fraquejar.

                Porque se juntam as multidões?
                Na Alemanha, os alemães aplaudiram Hitler. Hitler falava às massas com os seus discursos inflamados e as massas estavam lá, para ver, ouvir, aplaudir e para seguir. E também, havia colchas nas varandas. Eu ainda não sabia onde ficava a Alemanha, mas já tinha visto na televisão as multidões e as colchas.
                As colchas penduradas nas varandas e nas janelas associam-se aos atos religiosos, mas a sociedade civil tem esta estranha tendência de usar este adorno, para receber as autoridades civis, ou seja, favorecendo pelo aparato, e lamentavelmente contribuir para um certo endeusamento dos políticos. 
….
                Nessa noite ou noutra noite qualquer semelhante, pois as crianças nem sempre têm uma memória cronológica, feita de colchas coloridas, mas sim de retalhos…. retalhos simples e ingénuos, regressámos à casa da aldeia, no Taunus 12 M azul do meu pai. O automóvel era velho, a cair aos pedaços e estava habituado a carregar cimento e tijolos para as obras. Quando nevava, deixava entrar a neve pelo chão, junto aos pés de quem viajava atrás, normalmente eu, quando não queria viajar entre o meu pai e a minha mãe, no banco corrido da frente, pois essa localização fazia-me lembrar a minha condição de criança. Carro velho, mas ainda capaz de realizar pequenas distâncias.
                               .… eu ia atrás, mais um casal de jovens, que nunca tinha visto. Sabia que um deles era meu primo. Uns tempos antes tinha ouvido falar duma peripécia qualquer com o meu pai, envolvido num pequeno sarilho, transportando este primo para Lisboa com uma mala de conteúdo duvidoso, possivelmente subversivo. Uma história que poderia ter terminado mal, pois o meu primo decidiu sair do carro antes do final da viagem e o meu pai ficou com a referida mala, esquecida durante dois dias no carro estacionado à frente do hotel onde se hospedara, sem saber o que fazer com ela, nem ao seu conteúdo desconhecido, até ao momento que decidiu abri-la. Livros, papeis, fios eléctricos, arames, alicates, chaves de fendas e outras ferramentas úteis para certas “intervenções urbanas revolucionárias”, eram o conteúdo da mala, que foi abandonada às escondidas, algures no Ribatejo.
                Era noite escura, eles entraram no carro num sítio qualquer, já fora da cidade de Vila Real, parecia que tudo estava a ser feito na clandestinidade, mas bem combinado. Eu nessa noite estava cheia de perguntas para fazer, que não chegaram a ser proferidas. O casal parecia alegre e simpático, mas havia ali um clima de muita reserva e contenção, o nervosismo acompanhou toda a viagem, penso que devido à minha presença, para eu não ouvir o que não devia, receando que eu pudesse contar a alguém, fazendo perigar a segurança e a paz de todos. 
          Anos depois, descobri que se tratava de uma fuga à PIDE – o casal exilou-se na Suíça, regressando a Portugal apenas após a revolução de Abril.


In “ O fato que nunca vestimos” de Anabela Quelhas

Convite 17 de março de 2016